Vanessa Ferrari, no Blog da Companhia
A
realidade, como se sabe, é muitas vezes de uma chatice atroz. Por isso
não acho estranho que as meninas do clube de leitura tenham sinalizado
mais de uma vez o desejo de ler algo mais leve, que as tirasse por
algumas horas do cotidiano difícil da cadeia. Está muito claro, porém,
ao ler o ranking dos livros mais vendidos, que esse desejo não é
exclusivo desse grupo de leitoras. Uma literatura mais leve e pop, ao
que tudo indica, tem muito mais fãs do que queremos acreditar. Tenho
lido muitos textos a respeito do baile que os livros considerados de
“baixa qualidade literária” estão dando nas obras chanceladas pela
crítica. No geral, o tom é de indignação e desprezo.
Ou
então de leve indulgência. Embora eu entenda a frustração dos autores
desses textos, que adoram a boa literatura e gostariam de vê-la numa
posição de destaque, não compartilho desse espírito por muitos motivos.
Aqui vou me ater ao que julgo mais importante. Ao desqualificar essa
literatura, estamos julgando negativamente o livro mas também o leitor
por trás do livro. O que é dito, às vezes às claras, às vezes nas
entrelinhas, é que só uma pessoa sem nenhuma sofisticação intelectual
poderia gostar “desse tipo de literatura”.
E
em geral, os analistas atribuem essa mudança do mercado à entrada dos
leitores da classe C, à nova classe média. Não tenho dúvida de que isso
seja verdade, mas apenas em parte. A ideia de que os livros mais
palatáveis só acham leitores nas camadas mais baixas não se comprova na
prática. Ao meu redor, por exemplo, algumas pessoas que estão
aproximadamente a três galáxias da classe C leram Cinquenta tons de
cinza e gostaram, embora tenham dito, ou melhor, confessado isso com
algum constrangimento, porque elas sabem o que pode causar uma afirmação
dessa natureza no meio social em que vivem. E sobre esse livro
especialmente, que vende em média dez mil exemplares por semana no
Brasil, não há duvida: todas as classes sociais estão lendo as aventuras
sexuais do Mr. Grey.
E
assim como esse, há outros títulos que também não passaram pelo crivo
dos especialistas mas que estão nas bibliotecas de muitos amantes da
literatura. Já vi leitores de Sándor Márai comprarem Minutos de
sabedoria, doutores em Economia ansiosos pelo próximo Harry Potter,
amantes de Dostoiévski colecionando quadrinhos de super-herói. Por outro
lado, todo leitor algum dia já se perguntou para que serve a
literatura. Ou ainda qual o efeito dos livros em suas vidas. O papel
social da literatura é uma velha discussão, que sempre pode ter uma
resposta diferente de acordo com o momento histórico. Para alguns
teóricos, o livro seria uma ferramenta de testemunho de uma época que
nos conduz à reflexão, ao crescimento intelectual, ao entendimento da
sociedade.
Antonio
Candido, por exemplo, diz que a literatura “produz sobre o indivíduo um
efeito prático, modificando a sua conduta e concepção do mundo ou
reforçando neles o sentimento dos valores sociais”. Diante disso, que
autoridade temos para dizer ao leitor — qualquer leitor do Groupon —
que aquilo que ele sentiu ao ler determinado livro não é legítimo? E
como saberemos que aquele livro, reprovado por suas supostas fraquezas
literárias, não produzirá uma mudança na vida do leitor? A resposta me
parece bem simples: nunca saberemos. Para evitar que a condenação seja
mais criminosa que o crime, talvez valha a pena olhar para o modo como
lidamos com as outras manifestações artísticas, porque ao que tudo
indica aceitamos melhor que o cinema e a música nos presenteiem com puro
entretenimento.
Obviamente
ninguém acredita que os filmes de ação, de aventura, os seriados de TV,
as comédias românticas, os filmes B nos darão algum estofo intelectual.
Ou que as músicas de Carnaval e os hits que incendiam as pistas de
dança são um grande achado musical. Essa não é uma defesa de um tipo de
literatura em detrimento de outra, mas a favor da ideia de que o leitor é
soberano em suas escolhas e deve buscar sozinho o seu amadurecimento
intelectual. Os bons livros não precisam de advogados, eles são mais
silenciosos mas mais duradouros. E com o tempo, sem fazer alarde, um bom
autor deixa todos os outros para trás.
Saiba onde baixar livros em inglês.
Por
isso, entre defender a crítica, o livro, o autor, a minha escolha será
sempre pelo leitor, porque ele é sem dúvida a peça mais paradoxal,
enigmática, não linear e interessante de todo o tabuleiro.
oi linda ta tendo sorteio la no blog e gostaria muito que participasse http://decididaamudar.blogspot.com.br/2013/03/sorteio-em-parceria-com-use-d-bolsa.html
ResponderExcluir